LIFESTYLE

Uma (Muito Necessária) Atualização Sobre as Nossas Vidas

Uma noite estrelada nas montanhas de Bansko na Bulgária

Não sabemos ao certo quando está a ler isto, mas estamos a escrever em Abril de 2020, e todo o mundo parece concordar que tudo mudou muito, e muito rapidamente. Não temos soluções, curas mágicas, nem um conhecimento aprofundado sobre o que se passa, mas sentimos a necessidade de escrever este artigo.

O nosso objetivo foi sempre ter um blog mais pessoal, e não apenas um site com dicas de viagens. Com isso em mente, criamos resumos sobre as nossas vidas, e partilhamos os nossos favoritos. Contudo, com o tempo, o conteúdo mais pessoal acabou por passar para o Instagram (talvez seja boa ideia seguir-nos por lá se não quiser esperar um ano por um novo update aqui no blog… ups!). No entanto, com tudo o que se está a passar, não nos pareceu correto continuar a atualizar o blog com artigos normais, sem reconhecer a situação única pela qual estamos todos a passar.

Já há vários meses, muito antes de tudo isto acontecer, que eu e o Rui falamos da necessidade de atualizar a secção ‘Sobre Nós’. A verdade é que nossa vida mudou muito desde que a criamos, mas as prioridades acabam sempre por ser outras, e a página continua desatualizada. Por isso, vamos aproveitar, e incluir algumas das atualizações mais importantes neste artigo.

A dançar no Oasis de Fint, em Marrocos

Alerta spoiler: saímos de Lisboa, e o ano passado vivemos várias semanas a viver em Ouarzazate, Morocco

A Vida em Mudança

Não estávamos a exagerar quando mencionamos o quanto a nossa vida mudou desde que escrevemos a secção ‘Sobre Nós’mudamos por completo a nossa vida na tentativa de encontrarmos um melhor caminho para o que queremos (two find a way, literalmente).

Ainda éramos adolescentes quando nos mudamos juntos do Porto para Lisboa para fazer os nossos cursos, e continuamos na cidade por causa dos nossos mestrados e trabalho. Depois de inúmeras mudanças em Lisboa, estávamos a viver num pequeno apartamento ao qual chamávamos casa, com a promessa de uma carreira na nossa área de estudos, e com uma longa lista de lugares na capital que nos faziam felizes. Contudo, este panorama aparentemente perfeito, escondia coisas muito importantes que nos faltavam. Por um lado, fazíamos dinheiro suficiente nos nossos trabalhos para pagar as contas, mas para nada mais. E para além da precariedade do trabalho, preocupava-nos a loucura do mercado imobiliário em Lisboa, que os nossos salários não acompanhavam. Tornou-se impossível planear (ou poupar) para o futuro, e pensar numa altura em que íamos conseguir viver, e não apenas sobreviver. E apesar de ambos gostarmos dos nossos trabalhos, sabíamos que faltava algo.

Durante meses, desenhamos esquemas e preenchemos folhas de Excel com todas as possibilidades, e eventualmente decidirmos mudar por completo a rota da nossa vida. Deixamos os nossos trabalhos, o nosso apartamento, e a capital portuguesa. Estávamos (muito!) assustados, mas sabíamos que queríamos mais para as nossas vidas. Se há dez anos alguém me tivesse contado a mim (Maria) que ia estar a tomar esta decisão, não ia acreditar. Mas assim foi.

Um por do sol numa das melhores praias de Lisboa

Viajar é a nossa principal paixão, e não estávamos dispostos a parar de viajar em nome de uma falsa sensação de segurança. Pelo contrário, queríamos viajar mais. Por isso decidimos tornar-nos nómadas digitais. Aprendemos muito, e começamos a trabalhar como freelancers através dos nossos computadores. Hoje, criamos conteúdo e gerimos redes sociais de marcas, enquanto nos focamos também neste blog e noutros pequenos negócios que temos. Estas são coisas que podemos maioritariamente fazer enquanto viajamos. Não somos 100% remotos porque algum do trabalho que fazemos nos exige uma base durante alguns meses do ano. No total, passamos metade do ano de 2019 no Porto, e a outra metade a viajar e a viver pelo mundo.

Uma das coisas que mais gostamos é de passar mais tempo nos lugares que visitamos. Viver neles. Passar nas mesmas ruas vezes sem conta, até não precisarmos de mapa.

Não somos ricos, nem vamos ensinar ninguém a multiplicar o dinheiro na sua conta bancária em cinco minutos, mas estamos a fazer o nosso caminho. Sair do nosso apartamento não foi fácil, e este caminho também tem incluído momentos difíceis, com medo e ansiedade à mistura, mas sentimos que estamos no caminho certo. Temos que mencionar também que há muito privilégio envolvido nesta nossa escolha. Uma vez que a minha mãe nos abriu as portas da sua casa, podemos continuar a viver juntos, reduzimos muito as nossas despesas fixas, e temos passaportes portugueses, que nos permitem viajar e viver noutros países com relativa facilidade (pelo menos até esta pandemia começar, claro).

A Vida Ultimamente

Começamos 2020 com uma reunião sobre os nossos objetivos e planos para o ano. Essa mesma reunião acabou connosco a marcar bilhetes para a Rússia, um país que está na nossa lista de sonho há anos. O Rui encontrou uns voos super baratos, e apesar do preço ter duplicado depois de termos adicionado duas (pequenas) malas e lugares juntos, compramos os bilhetes na mesma.

Eu fiz o download da app Duolingo, e apontei uma longa lista de filmes e séries russas para ver, e livros para ler. Tudo em preparação para a nossa viagem a São Petersburgo. Tínhamos a primeira metade do ano planeada: viajar por Portugal e Espanha nos primeiros meses. Visitar a Rússia em Março, e regressar a Bansko na Bulgária depois, uma pequena cidade pela qual nos apaixonamos no Outono passado, e que queríamos muito v(iv)er na Primavera. Uma proposta de trabalho alterou os planos, e a viagem à Bulgária acabou por ser substituída por uma viagem a Marrocos. Voltaríamos a Portugal em Junho, porque tínhamos que cá estar nessa altura por motivos de saúde. A nossa primeira metade do ano estava toda planeada e a bater certinho. Até claro, não estar.

Com uma pandemia declarada pela Organização Mundial de Saúde, e uma crise sem precedentes na Europa e no mundo, todos os nossos planos foram cancelados. Das planeadas, a única viagem que fizemos foi a Salamanca no início do ano.

Vista de Salamanca, incluindo a sua imponente Catedral

Dias solarengos a conhecer Salamanca, uma cidade encantadora em Espanha

A dançar por Salamanca, em Espanha
Convento de las Duenas em Salamanca, Espanha

Sentir Tudo

Não é fácil lidar com todos os sentimentos que esta situação envolve. Por um lado, a frustração é semi-permanente: todos os nossos planos foram cancelados, perdemos trabalhos agendados, e gastamos dinheiro em viagens que não fizemos (que continuamos sem saber se vamos conseguir reaver). Verdade seja dita, partilhar um pequeno apartamento com três outras pessoas nem sempre é fácil nem livre de conflito, e é difícil aceitar que há muito pouco que podemos fazer em relação a tudo isto. Continuamos a trabalhar sem parar, mas nem sempre é fácil encontrar a motivação para escrever sobre viagens com tudo o que se passa. Tentamos manter-nos criativos, aprender coisas novas, e continuamos a viajar, ainda que apenas virtualmente, através das composições que temos feito para o Instagram. E sim, também temos uma conta de TikTok.

Viajar nos nossos sonhos: um projeto no nosso Instagram Two Find a Way

Tão cedo não podemos ir à Nova Zelândia, mas continuamos a poder viajar nos nossos sonhos e no nosso Instagram

Por outro lado, também nos sentimos infinitamente gratos por tudo o que temos. Um teto, comida na mesa, e saúde (a nossa, e a de quem nos rodeia). Também estamos agradecidos por todos os que arriscam a sua saúde para garantir que o mundo continua a rodar e que os setores essenciais continuam em funcionamento.

Ao mesmo tempo, temos experienciado muita culpa por todos os privilégios que temos, quando sabemos que tantos têm tão pouco. Temos tentado ajudar e fazer a nossa parte dentro do que conseguimos, mas a realidade é que o mundo já era um caos antes da pandemia, e ainda será mais depois. Sabemos da nossa sorte por podermos estar em casa, e se tiver o mesmo luxo não o tome por garantido.

Sobre o Dinheiro

Nós não somos experts em finanças, mas sabemos que o dinheiro é uma enorme preocupação para muitas pessoas, como é para nós. Na sociedade em que vivemos, o dinheiro é um enorme tabu, e nós estamos dedicados a mudar isso da forma que conseguimos. Acreditamos que falar abertamente sobre este assunto é a única forma de aprender genuinamente. É também por isto que partilhamos online quanto gastamos nas nossas viagens.

Tanto eu como o Rui somos muito interessados neste tópico, e estamos constantemente a aprender como melhor gerir esta parcela das nossas vidas. O Rui passou anos na faculdade a estudar estes assuntos, e eu já aponto onde gasto cada cêntimo desde miúda. Quando me mudei para Lisboa para estudar, a minha relação com o dinheiro mudou bastante, porque pela primeira vez na minha vida tive não só que aprender a lidar com a verdadeira falta de dinheiro para pagar contas, como depois tive que aprender pela primeira vez como lidar com um empréstimo de estudante. Ser um adulto com o dinheiro contado é sempre complicado, mas com dívida é ainda mais difícil.

Por isso mesmo, investimos constantemente em aumentar a nossa literacia financeira. O nosso objetivo é aprender a controlar o dinheiro, e não deixar que ele nos controle a nós. Claro que na prática não é assim tão simples, muito menos em alturas de crises, mas é por isso mesmo que nos parece útil partilhar os instrumentos que utilizamos.

A respirar o ar fresco da natureza de Bansko na Bulgária

Bansko, na Bulgária, é um destino fantástico e super acessível para nómadas digitais

Uma caminhada pela magnífica montanha de Vitosha em Sófia, na Bulgária
Apreciar a natureza magnífica em tempos de Outono em Bansko, na Bulgária

No início de cada ano reunimos para planear o nosso orçamento anual: quanto planeamos gastar em cada categoria, quanto planeamos fazer, e poupar. Algumas despesas são fixas e já as conhecemos, outras são projeções baseadas nos nossos planos, que nos dão um mapa geral do ano. Depois, a cada mês, vamos atualizando com os nossos gastos efetivos e com possíveis alterações nos nossos planos. Um passo muito importante para nós é apontar tudo. Eu uso o Excel, já o Rui prefere a app MoneyBoard, que usa há anos.

Como freelancers, é muito importante para nós diversificar as nossas fontes de rendimento e aproveitar as oportunidades para monetizar os nossos negócios. É por isso que começamos a oferecer serviços de assistência virtual, e o Rui também aproveitou esta altura para começar a vender online as suas skills de edição de fotos.

Para além de fazer mais dinheiro, é muito importante poupar. Olhamos sempre para o nosso rendimento de forma crítica, e colocamos logo de parte o dinheiro que sabemos que vamos ter que pagar em impostos e outras despesas associadas. No nosso caso, colocamos uma percentagem do dinheiro que fazemos aparte para cobrir estes custos.

Recursos

Há muitas pessoas a dar conselhos sobre dinheiro e finanças na internet, mas é preciso ter cuidado com quem ouvimos. Nem todas as pessoas são honestas, e muitas estão mais a tentar vender-nos alguma coisa, do que ensinar-nos coisas verdadeiramente úteis. O dinheiro não é uma ciência, e no meio de toda a informação, temos que encontrar a que funciona para nós. A não ser que ganhe a lotaria, ninguém tem as respostas sobre como plantar uma árvore de dinheiro.

Existem imensos livros sobre literacia financeira. Um dos que mais recomendo para quem está a começar esta jornada é o “You Are a Badass at Making Money” da Jen Sincero. Sim, tem uma parte de livro de autoajuda que pode não ser para todos, mas eu adorei a forma como o livro me forçou a olhar para a minha relação com o dinheiro de uma forma diferente, e desafiou muito dos meus preconceitos.

Online, há dois canais do Youtube sobre o tópico dos quais não me canso: The Financial Diet e o One Big Happy Life. Já mais especificamente sobre empreendedorismo e criação do próprio negócio, adoro seguir todo o conteúdo do Jason e da Caroline, que juntos fazem o Wandering Aimfully que inclui um grupo de mentoria, um blog, um podcast, um canal de Youtube, e muito mais conteúdo. Ainda não tive capacidade financeira de me juntar ao programa pago mensal deles, mas aproveito todo o conteúdo gratuito que partilham e recomendo muito!

O Amor nos Tempos de Pandemia

Apesar de tudo, este tempo de isolamento não mudou drasticamente as nossas vidas. Já trabalhávamos remotamente, por isso a maior parte do nosso tempo continua a ser passado atrás do computador a trabalhar, enquanto tentamos fugir de demasiadas notícias online.

Era bom se pudéssemos escrever que estamos a adorar o isolamento, que já temos abdominais perfeitos de todo o exercício caseiro, e que o nosso romance está quase pronto de tão produtivos que temos sido. Mas não é verdade. O exercício é o que vamos conseguindo fazer, a motivação e o espaço certo para trabalhar nem sempre encontramos, dormir tem sido um enorme desafio, e passamos um dia inteiro desta quarentena a ver La Casa de Papel.

Ir ao supermercado lembra-nos de um mau filme de ficção científica, temos saudades do mar, dos nossos amigos, de viajar, das nossas vidas normais, e de sushi. Alguns dos pontos altos deste isolamento foram a noite em que a minha mãe cozinhou Polvo à Lagareiro, fazer bolachas, e trabalhar no meu bullet jornal às três da manhã. Estamos a tentar sobreviver a isto tudo. Viver um pouco apesar disto tudo. A tentar ter paciência connosco mesmo quando o nosso melhor não é tão bom quanto gostaríamos.

Polvo à Lagareiro caseiro - um dos deliciosos pontos altos da quarentena
Fazer biscoitos: uma das nossas principais atividades de quarentena
Spread de objetivos para bullet journalA trabalhar num spread de bullet journal para Abril

Estamos a apontar todas as recomendações do que ver/ler/ouvir/experimentar durante esta altura, e também a partilhar os nossos favoritos (que podem encontrar nos nossos destaques do Instagram). Um dos melhores filmes que vimos este ano foi o Jojo Rabbit, e a citação do fim do filme adequa-se perfeitamente ao que estamos a viver:

“Deixa que tudo te aconteça
Beleza e pavor
Apenas continua
Nenhum sentimento é final.”

Rainer Marie Rilke

Esperamos que esteja seguro e a dar o seu melhor nestes tempos difíceis. A verdade é que não deveríamos precisar de um vírus para nos lembrar que estamos todos ligados, e que a compaixão e a empatia são aquilo que o ser humano mais precisa em todas as alturas, e mais ainda em alturas como esta. Não se esqueça de respirar fundo, lavar bem as mãos, e de se inspirar para os tempos melhores que nos esperam.

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